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Competências Essenciais e Lifelong Learning: O que o profissional e as instituições educacionais precisam saber e fazer sobre o tema?

O trabalho, os trabalhadores e as empresas foram definitivamente impactados pela Quarta Revolução Industrial (4IR), em todo o mundo. As tarefas e a natureza do trabalho foram alteradas e transformaram-se em uma atividade de natureza mutável, pela tecnologia digital, robótica, automação e Inteligência artificial.

A economia mundial, que era baseada na manufatura, firma-se agora no conhecimento e na capacidade inovadora dos cidadãos e das organizações para gerar riqueza, além de criar novos conhecimentos.

Segundo o European Centre for the Development of Vocational Training (Cedefop), os novos empregos demandam uma combinação entre as competências digitais, comportamentais e sociais. Os empregadores, por sua vez, reconhecem que as competências e habilidades técnicas e específicas exigidas pelo trabalho estão sujeitas a mudanças constantes e nem sempre previsíveis.

Profissional competente é aquele que sabe mobilizar e combinar um conjunto de recursos de sua personalidade (conhecimentos, habilidades, qualidades, experiências, etc.) e do ambiente (dados, redes de especialistas, etc.), e age com equilíbrio na busca de uma solução para a situação que se apresenta. (LE BOTERF, 2003).

Na maioria dos países da Organisation for Economic Co-Operation and Development (OECD, 2005), o valor do profissional é colocado na flexibilidade, no empreendedorismo e responsabilidade pessoal. Espera-se que os  indivíduos sejam adaptativos, mas também inovadores, criativos, autodirigidos e automotivados.

Segundo a  OECD (2005), o conceito de lifelong learning explica porque nem todas as competências importantes podem ser oferecidas pela educação básica, isto é:

  • As competências desenvolvem-se e mudam, ao longo da vida, ou seja, o ser humano pode adquirir ou perder competência na medida em que envelhece;
  • As transformações que ocorrem na tecnologia e nas estruturas sociais e econômicas alteram as demandas sobre os indivíduos, no decorrer da vida adulta;
  • Segundo a psicologia do desenvolvimento, a aquisição de competências continua, na idade adulta, especialmente a capacidade de pensar e agir reflexivamente.

Quais são as Competências Essenciais?

A identificação das competências essenciais tem sido a preocupação de diversos autores, universidades, órgãos e institutos nacionais e/ou internacionais, dentre eles: Battelle for Kids; European Commission; International Society for Technology in Education (ISTE); OECD; O*NET Resource Center; Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco); World Economic Forum (WEF).

O Conselho da União Europeia publicou, em 2018, a mais recente versão do  Quadro de Referência Europeu de Competências Essenciais para o lifelong learning. Nesse quadro, pretende-se identificar e definir as competências essenciais necessárias para a sociedade do conhecimento, além de fornecer referências aos Estados-Membros sobre o desenvolvimento dessas competências essenciais em cidadãos de todas as faixas etárias.

A descrição das oito competências essenciais e o resumo das capacidades, habilidades e atitudes que compõem cada competência são apresentados a seguir.

1. Competências de literacia (alfabetização e letramento digital)

São as capacidades de identificar, compreender, expressar, criar e interpretar conceitos, sentimentos, fatos e opiniões, tanto oralmente como por escrito, utilizando como apoio ferramentas visuais, auditivas e materiais digitais. Envolve a capacidade de se comunicar de forma criativa.

2. Competências multilíngues

São as capacidades de se comunicar em várias línguas, de maneira adequada e eficaz; de compreender as mensagens faladas; de iniciar, manter e concluir conversas; ler, compreender e redigir textos com variados níveis de proficiência em diferentes línguas.

3. Competências matemáticas e no domínio das ciências, da tecnologia e engenharia

O conhecimento necessário em matemática pressupõe um conhecimento sólido dos números, das medidas e estruturas, das operações fundamentais e representações matemáticas de base.

Para as ciências, a tecnologia e a engenharia, os conhecimentos essenciais compreendem os princípios básicos do mundo natural, os conceitos, as teorias, os princípios e métodos científicos fundamentais, a tecnologia e os produtos e processos tecnológicos, dentre outros.

4. Competências digitais

Envolvem a adesão e o emprego de tecnologias digitais no trabalho, na aprendizagem e na sociedade. Capacidade de acesso, utilização, filtragem, avaliação, criação, programação e compartilhamento de conteúdos digitais. Capacidade de gerir e proteger as informações, os dados,  conteúdos e as identidades digitais, etc.

5. Competências pessoais, sociais e capacidade de “aprender a aprender”

Abarcam a capacidade de refletir sobre si próprio; gerir o tempo e a informação; colaborar;  manter a resiliência; e  gerir a sua própria aprendizagem e carreira. Compreendem a capacidade de lidar com a incerteza e  complexidade; aprender a aprender; cuidar do próprio bem-estar físico e emocional; sentir empatia; e gerir conflitos num contexto inclusivo e favorável.

6. Competências de cidadania

Abrangem a capacidade de agir como cidadão responsável e participar plenamente na vida social e cívica, com base na compreensão dos conceitos e de estruturas sociais, econômicas, jurídicas e políticas. Incluem a capacidade de interagir com os outros; ter espírito crítico; capacidade de resolução de problemas; desenvolver argumentos; além de participar de forma construtiva em atividades da comunidade.

7. Competências de empreendedorismo

Referem-se à capacidade de aproveitar oportunidades e ideias e transformá-las em valores para os outros. Encontram-se na criatividade, no pensamento crítico e na resolução de problemas, no espírito de iniciativa, na perseverança e  capacidade para trabalhar em equipe, a fim de planejar e gerir projetos.

8. Competências de sensibilidade e expressão cultural

Requerem a compreensão e o respeito pela expressão e comunicação criativa de ideias em diferentes culturas. Trata-se de compreender, desenvolver e expressar ideias próprias, bem como um sentido do papel desempenhado na sociedade.

Quais relações são possíveis entre o lifelong learning, os profissionais e as instituições educacionais?

A empregabilidade na 4IR depende cada vez mais da capacidade interna dos profissionais em construir as competências adequadas para lidar com as novas demandas do trabalho e da sociedade. Os indivíduos necessitam de capacidade de se adaptar e se atualizar continuamente, isto é, precisam se tornar lifelong learners.

Segundo a International Labor Organisation (ILO, 2019), estabelecer um ecossistema eficaz de aprendizagem, ao longo da vida, exige o envolvimento e  apoio ativos de governos, empregadores e trabalhadores, bem como das instituições educacionais.

As instituições educacionais precisam sensibilizar os estudantes, desde o nível básico, para que assumam a responsabilidade pessoal pela própria aprendizagem, ao longo da vida, e pelo desenvolvimento de suas carreiras.

O aprimoramento das habilidades ou competências possibilita que as pessoas trabalhem com mais eficácia e aproveitem as vantagens de tecnologias avançadas; elimina obstáculos para o investimento empresarial; evita desajustes no mercado de trabalho; e cria um ambiente propício para pesquisa e desenvolvimento (P&D) e inovação, nas organizações.

A  constante autorreflexão sobre quais competências adquirir ou aperfeiçoar ajuda o profissional  a antecipar as necessidades de especializar-se ou obter qualificação. Pode, também, fazê-lo decidir por novos rumos na carreira profissional.

Referências

AUSTRALIA. Department of Education, Science, and Training. Employability skills for the future. The Department, 2002.

CEDEFOP. European Centre for the Development of Vocational Training. People, machines, robots and skills. Technological unemployment is a recurring theme, but joblessness in the digital age will depend on human, not artificial, intelligence, 2017. Disponível em: https://www.cedefop.europa.eu/en/publications-and-resources/publications/9121. Acesso em: 11 fev. 2020.

CONSELHO DA UNIÃO EUROPEIA. Proposta de recomendação do conselho de 22 de maio de 2018 sobre as competências essenciais para a aprendizagem ao longo da vida. Jornal Oficial da União Europeia (2018/C 189/01), 2018. Disponível em: https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/TXT/PDF/?uri=CELEX:32018H0604(01)&from=EN. Acesso em: 13 fev. 2020.

EUROPEAN COUNCIL. Presidency conclusions – Stockholm European Council, 23 and 24 March 2001. Disponível em:

https://ec.europa.eu/commission/presscorner/detail/en/PRES_01_900. Acesso em: 14 fev. 2020.

INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO). Work for a brighter future: Global Commission on the Future of Work. 2019.

ORGANISATION FOR ECONOMIC CO-OPERATION AND DEVELOPMENT. The definition and selection of key competencies: executive summary. 2005.

PANEL, ICT Literacy. Digital transformation: A framework for ICT literacy. Educational Testing Service, p. 1-53, 2002.

SCARDAMALIA, Marlene et al. New assessments and environments for knowledge building. In: Assessment and teaching of 21st century skills. Springer, Dordrecht, 2012. p. 231-300.

WOLRD ECONOMIC FORUM. HR 4.0: Six Imperatives for the Workforce of the Future. 2019. Disponível em: http://www3.weforum.org/docs/WEF_NES_Whitepaper_HR4.0.pdf. Acesso em: 14 fev. 2020.

Lucia Cuque, Consultora, professora e coach, sua experiência profissional está concentrada no desenvolvimento de profissionais e na criação e gestão de universidades corporativas. Mestre em tecnologias da inteligência e design digital, pela PUC-SP; pós-graduada em administração de RH, pela Universidade Paulista; e pedagoga, também pela PUC-SP.  

Tem formação em coaching, pelo NeuroLeadership Institute, e, em Programação Neurolinguística, pela Sociedade Brasileira de Programação Neurolinguística. 

Para ler outros artigos de Lucia Cuque, acesse: www.luciacuque.com.br

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