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RELAÇÕES ENTRE IMAGEM E TEXTO: UMA QUESTÃO DE (IN) COERÊNCIA SEMIÓTICA

Prof. Dr. Luiz Fernando Gomes - UFAL

Textos acompanhados de imagens fazem parte do mundo da escrita desde há muito tempo. Conforme observou Landow (1997, p.63), “olhando para a história da escrita pode-se perceber que há uma longa conexão com a informação visual, não apenas na origem de muitos sistemas alfabéticos, em hieróglifos e outras formas originais de escrita”. De fato, já os manuscritos medievais e todos os tipos de textos impressos e digitais atuais apresentam algum tipo de combinação de tamanhos de letras, fontes, margens e espaços entre as letras e adereços visuais, de forma que todo texto impresso é também visual. Desde o volumen (rolo) no período romano até o códex, formato do livro atual, o lugar, o status e a função da imagem passaram por inúmeras evoluções (LINDEN, 2011). Devido a limitações gráficas houve no decorrer da história, uma predominância da informação verbal sobre a visual nos textos impressos. A xilogravura de topo, desenvolvida pelo inglês Thomas Berwick, nos anos 1770 foi, até o final do século XVIII, a única técnica que permitia compor com versatilidade numa mesma página caracteres e figuras. Várias outras tecnologias gráficas vieram depois, facilitando a composição das páginas. Nos últimos tempos tivemos a linotipo e os clichês fotográficos, as máquinas Offset e, atualmente, os programas digitais de editoração.

As relações imagem-texto passaram a ser objeto de estudos linguísticos principalmente a partir da publicação da obra Reading Images: The Grammar of Visual Design, de Kress and Van Leeuwen, em 1996. Esse trabalho traz uma aplicação para o modo visual de representação dos princípios da Gramática Sistêmico- Funcional desenvolvida por Halliday em 1994. No livro os autores apresentam o conceito de texto multimodal, como sendo um texto que combina diferentes recursos semióticos para produzir sentido.

O tema é amplo e os problemas que ele suscita vêm desafiando estudiosos há muito tempo. Nenhuma teoria sozinha, porém, dá conta dos inúmeros contextos e das infinitas possibilidades de ocorrência e de circulação de textos multimodais.

As relações imagem e texto têm sido investigadas sob diversas perspectivas e com diferentes objetivos. Várias disciplinas buscam teorias para responder à imensa variedade de questões que as relações imagem e texto ensejam. Destacamos a linguística textual, voltada para o estudo da coerência entre os modos verbal e visual e para a compreensão da organização retórica e discursiva do conjunto persuasivo do texto-imagem em anúncios de propaganda, capas de revistas etc. Há também estudos cognitivos sobre a recepção de textos multimodais. Estudiosos de literatura, especialmente a infantil, têm se dedicado às questões de leitura dos livros ilustrados, dos livros de imagens, das tirinhas e das histórias em quadrinhos. A lista inclui ainda interessados em história da arte, história do livro e da leitura, ilustradores, designers gráficos, entre outros. Os educadores brasileiros têm, na medida do possível, procurado utilizar os resultados dos escassos estudos realizados no Brasil para auxiliá-los em suas aulas, uma vez que os exames nacionais trazem questões que envolvem a leitura de tirinhas, anúncios publicitários e os próprios livros escolares utilizam imagens com fins didáticos.

O estudo das relações imagem e texto (ou vice-versa) torna-se cada vez mais importante e urgente, posto que com o aumento da produção e circulação de imagens (fotos, desenhos, infográficos, vídeos etc.) a demanda por uma sociedade letrada nos modos verbal e não verbal leva-nos a todos a refletir sobre o tipo de ensino de leitura e de escrita estamos oferecendo em nossas escolas. Assim, nos questionamos sobre o quanto e como os leitores estão compreendo os textos e vídeos que manipulam diariamente. Novos leitores e leitores maduros: que dificuldades têm ao lidar com textos multimodais impressos ou digitais? Sendo verdadeira a concepção de que o texto verbal apela ou chega primeiro à razão e os textos não verbais, tocam as nossas emoções, em uma época de leitura rápida de legendas e excesso de imagens, estariam os leitores sentindo sem pensar, sem parar para refletir?

Ficam aqui algumas questões para refletirmos. Elas ressaltam a importância do Educonecta, cuja proposta, como sabemos, é trazer cursos e informações que ajudem a alunos, professores e demais interessados a conhecer e estudar os desafios da educação e do conhecimento da nossa era.

Maceió, agosto de 2020.

Referências

HALLIDAY, M.A.K.. An Introduction to functional grammar (2nd ed). London: Edward Arnold, 1994.
KRESS, G. and VAN LEEUWEN, T. Reading Images. The Grammar of Visual Design. Routledge: London. 1996.
LANDOW, G.P. Hypertext 2.0: The Convergence of Critical Contemporary Theory and Technology. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 1997.
LINDEN, Sophie Van der. Para ler o livro ilustrado. São Paulo: Cosac Naif, 2011.


Doutor em Linguística Aplicada, campo de concentração Linguagem e Tecnologia. Realiza pesquisas envolvendo questões sobre leitura e escrita em ambientes digitais e comportamento digital na sociedade conectada.
Professor do Programa de Mestrado em Letras – PROFLETRAS – da UFAL.

A compreensão da tirinha somente se faz possível com a leitura de ambos os modos de representação.

Fonte: https://images.app.goo.gl/ZnvuaKq152eTYLuz7
Crédito: O Mundo de Tayó Produções | Reprodução
Autora: Kiusam de Oliveira, autora do livro ‘O mundo no black power de Tayó’

Observem as transformações nas capas do livro de José de Alencar, Iracema, através dos tempos e os apelos que faz aos leitores.

Fonte: https://images.app.goo.gl/jriAK9DMPfNv5kin6
Editora L&PM POCKET.

Este post tem 3 comentários

  1. Daniele

    Quando ainda era estudante de Letras, o Prof. Luiz Fernando apresentou à minha turma as relações entre texto e imagem. Consequentemente, abriu para mim um caminho sem volta: o interesse pelas diversas manifestações da linguagem. Das Letras, caminhei para o Design.
    Foi ele, Prof. Luiz Fernando, minha inspiração em vários momentos. Hoje, ao ler este texto dois sentimentos batem à porta: saudade e gratidão.

  2. Leo Victorino

    Difícil ler uma única frase escrita, ver uma única figura desenhada ou ouvir uma única palavra dita pelo prof. Luiz Fernando e não aprender uma coisa nova. Obrigado e parabéns pelo texto!!

  3. Obrigado, Dani e Leo. Sempre aprendi muito com vcs tb. Tenho muito orgulho de vcs e da Rosi, da Educonecta.

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